Bom dia!    

     Provavelmente já todos declarámos, com alguma altivez, que nada nos pode surpreender. Fazemos confiantes tal afirmação quando correm até nós a anunciar uma grande descoberta científica ou uma impressionante vitória da medicina ou mesmo quando nos exibem um prodigioso animal que imita os humanos. Invariavelmente olhamos condescendentes para essas maravilhas e, em vez de abrirmos a boca de espanto, soltamos uma espécie de bocejo interior e continuamos a passear na nossa modorra. A enxurrada de inovações e mudanças que caracteriza o nosso tempo como que nos vacinou contra qualquer eventual surpresa, de modo que nem quebrando velhos “tabus”, nem realizando as mais incríveis acrobacias físicas ou intelectuais, nos conseguem fascinar.

     Mesmo julgando-nos imunes ao espanto, ainda deixamos uma pequena reserva: só algo assombrosamente grande e espectacular nos pode perturbar. Mas na verdade são as mais pequenas fugas à rotina quotidiana que causam o maior de todos os espantos. Como no outro dia de manhã em que eu seguia a passo rápido pelas ruas da cidade... Por azar o meu relógio tinha avariado, de modo que não sabia se estava atrasado ou não e, para não arriscar, acelerei a cadência da caminhada. Lá ia eu a bom ritmo, olhos no chão, maldizendo interiormente a avaria do relógio, quando de repente alguém ao meu lado me cumprimenta num tom alegre: «Bom dia!». Com os olhos bem arregalados de espanto, virei-me assustado para o lado e lá estava um homem que eu nunca vira mais gordo. Não sei como, ainda tive a boa educação de retribuir a saudação, mas o meu «bom dia» saiu muito mal articulado e completamente molhado pela surpresa do sucedido. Antes que o tal homem pudesse meter conversa acelerei ainda mais o passo e deixei-o para trás. Estava completamente atónito: sem mais nem menos eu, que vinha sossegado com os meus pensamentos, tinha sido abalroado pelas palavras do sujeito, sentia-me metralhado por ele, aquelas palavras vindas de repente de alguém que nunca vira tinham o efeito de uma punhalada! Uns bons passos à frente não resisti à curiosidade e para certificar-me que aquele era mesmo um completo desconhecido, olhei para trás... olhei e vi o mesmo tipo a conversar com outros dois - pensei: «àqueles deve estar a perguntar o que é que comeram ao pequeno almoço!».

     Segui convencidíssimo que se tratava de um louco, mas à medida que avançava e depois de ultrapassar o susto inicial, reflecti sobre essa loucura e comecei a questionar-me sobre quem era o verdadeiro louco - era louco o homem por se sentir alegre com o mundo e cumprimentar quem lhe aparecesse pela frente, ou era louco eu que fiquei apavorado com um simples «bom dia»?

     É extraordinário como construímos a nossa vida sobre pequenos e insignificantes nadas e é ainda mais extraordinário como ficamos surpreendidos quando algum desses nadas falha ( ainda por cima nós, a quem já nada surpreende!). O pior é que essas bases sobre as quais nos apoiamos não prestam, são maus alicerces - como o modo como nos comportamos com desconhecidos: como que seguimos um formulário bem detalhado onde se esclarece em que situações devemos falar com eles, como falar, como olhar (se se puder olhar!), como mexer as mãos, e por aí fora. É desanimador ver como a espécie humana se comporta entre si, ou antes, como se ignora. Os gatos quando se cruzam ou assanham-se ou cheiram-se, um Homem ao passar por outro é como se passasse por uma árvore ou por um poste de electricidade. Não digo que nos assanhemos com a pessoa que se senta ao nosso lado no autocarro, mas pelo menos que a sua existência nos cause alguma reacção: ódio por ser feia, repugnância por cheirar ao suor, interesse por ter uma roupa bonita, estima por parecer uma pessoa trabalhadora, etc., mas nunca indiferença - as pedras é que são indiferentes a tudo - é mais humano virar a nossa atenção para quem se senta ao lado do que olhar para as estradas e edifícios que o vidro do autocarro nos oferece.

     O homem que eu nunca vi mais gordo já deve ter compreendido que é deprimente desprezar o resto da Humanidade, por isso cumprimentou-me. Ao fazê-lo mostrou-me que não custa nada oferecer aos outros diariamente seis letrinhas, duas palavritas, uma pequena frase que se por acaso os não ajudar a começar melhor o dia, pelo menos surpreende-os (e bem precisamos nós de ser surpreendidos!):

     - BOM DIA !            

 

Carlos Alvarenga

 

 

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PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra