Espectáculo
 

 

Tudo parece esconder aquilo que se lhe opõe. Altivas vozes troam sem cessar, e dizem que da História nada mais há-de vir, que tudo aqui se finda, que apenas nos resta a resignação de este ser o melhor dos mundos. Para esses é-o.

Os homens por detrás do lucro que nos e os regem sabem que a melhor arma é a ideia, e por isso consumimos pensamento julgando que pensamos. Aquilo que somos surge essencialmente daquilo que experimentamos – a ideia que temos de nós mesmos surge do material, mas o material que vemos é condicionado, logo somos nós que estamos permanentemente condicionados à necessidade inultrapassável de outros lucrarem sempre mais. Muitas das imagens que supostamente nos mostram o mundo estão enevoadas, as câmaras que as captam desfocam-se e seleccionam aquilo que deve ser mostrado que mais não é do que aquilo que ansiosamente desejamos ver. A economia da informação e da opinião legitimam tudo, mas legitimar apenas é convencer a maioria, a mesma maioria que via em Estaline o arauto da vanguarda ou que agora eleva a mediocridade da generalidade do cinema norte-americano à condição de arte, a mesma multidão que prontamente aceitou as leis de Nuremberga e que hoje passa os serões à frente das televisões. A informação é espectáculo, e este nunca pode parar. Não questionamos esta forma de vida, fizeram-nos acreditar que acreditávamos nela.

Os nossos quotidianos estão organizados para não vermos o quão desumanos conseguimos ser: aprendemos na juventude a repetir diariamente o trajecto casa-escola-casa, que depois repetiremos até ao fim dos nossos dias na sua versão mais duradoura, casa-emprego-casa, num tédio absoluto que atenuamos com férias num cantinho preparado para nos receber num qualquer país subdesenvolvido cujos principais hotéis (e tudo o resto que importa) pertencem a capitalistas ocidentais. Rimo-nos com o Baião Saltitão que pula quase tão rapidamente como os capitais especulativos nos seus périplos horários pelos mercados bolsistas e cambiais pelo planeta, alcançamos indizíveis orgasmos com a vitória do nosso clube de futebol, ajoelhamo-nos perante a caixinha mágica que é o caixão onde jaz a nossa insubmissão.

Dirão os conformados que nada mais necessitam do que a certeza do seu bem-estar. Talvez a revisão do entendimento que fazem de bem-estar não fosse exercício desprovido de sentido. Goza de bem-estar aquele que é bastas vezes sobremedicado para que os médicos gozem das regalias oferecidas pelas farmacêuticas? E aquele que consome medicamentos cuja reduzida eficácia é propositadamente engendrada pelas farmacêuticas para que os tratamentos se prolonguem? Produtos transgénicos multiplicam-se nas prateleiras dos supermercados, a instabilidade bolsista pode reduzir as nossas poupanças a zero em menos de horas, as cidades são caos onde o tempo perdido nos transportes nos vão anulando lentamente, vendemo-nos num mercado de trabalho onde cada vez mais o nosso amanhã está nas mãos de outros. Para nós, isto. Para os outros, menos ainda: a degradação cresce nos arredores das nossas urbes rendidas ao comércio e ao trabalho, bairros podres onde a escumalha se atulha e para onde poderemos ir se não nos vendermos ao preço e nas condições que o lucro acha conveniente; os homens e mulheres dos países subdesenvolvidos suportam condições de vida inumanas enquanto vêm os capitalistas ocidentais a sustentar o fausto dos corruptos políticos locais; chineses, tailandeses e tantos outros trabalham 16 horas por dia para alimentar as fabulosas taxas de lucro que enchem de orgulho os conselhos de administração das empresas europeias e norte-americanas.

Apesar de tudo, nada nem ninguém é totalitário ao ponto de anular toda a possibilidade de consciência. Não mais nos podemos furtar a reflectir humanisticamente sobre a ausência da centelha da vida em tudo que fazemos. E desta reflexão emerge, inevitavelmente, uma conclusão: luta.

Bruno José Rocha

zapman@sonata.fe.uc.pt

 

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PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra