O momento esculpido na foto

Revela o tremor dos dias

A quem se senta no sofá.

 

Um homem de meia idade,

Camisa aberta sobre o peito,

Aponta com o dedo para algures

Enquanto se vira e olha para trás:

Procura desesperado

Alguém que lhe valha na aflição,

E os olhos perdem-se, indecisos,

Entre a terra e os céus

Por não saber a qual pedir ajuda.

 

Um homem alto e magro,

Camisa chicoteada pelo gesto,

Aponta com o dedo para algures

Enquanto se vira e berra para trás:

Não sei o que diz, se diz algo,

Mas lança-se todo num grito

Que se propaga pela cara

Em ondas de urgência e de pânico

Para alertar os que não vêem.

 

Um homem de pele morena,

Camisa suja e rasgada,

Aponta com o dedo para algures

Enquanto atira a outra mão para trás:

Puxa com os dedos esganiçados

O mundo inteiro em seu auxílio

E os nervos tensos sobem pelo braço

No esforço de tudo arrastar

Na corrida para o desastre.

 

Nem a câmara pára este momento,

Este homem a duas dimensões.

 

O que vês tu?

 

Caída a máscara dos dias normais

Mostras a verdadeira cara:

Os traços de agonia,

As rugas de dor,

O perfil do desespero;

O que vês decerto esmaga-te

E mesmo assim apontas decidido

Sem pensares se és ou não capaz...

 

Porque chamas pelos outros?

 

Por certo julgas

Que comungas com toda a terra

A mesma desgraça, o mesmo pânico!

Fico a ver-te chamar.

 

Para onde corres tu?

 

Esquece a pressa que te move:

Nem que a gota caia ao teu lado

Consegues parar a chuva.

Senta-te aí no chão

E morre um pouco mais!

 

E tu,

Apontas com o dedo para algures,

Viras-te para trás e gritas:

“ a loucura do Mundo...

... é preciso travar”.

 

 

 

A preto e branco.

 

 

Carlos Alvarenga

 

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PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra