Porque deixámos nós de sonhar?
 

 

O esvaziamento de ideais de uma sociedade liberal por inevitabilidade, as mutações comportamentais numa sociedade consumista e consumida, a hierarquização das prioridades tendo em vista um sucesso imediatista e individual, reflectem-se e enformam o estudante actual. O abstencionismo que nos cerca e demove e a falta de iniciativa e de força interpretativa da nossa geração somente poderá ser compreendida à luz de uma crescente emancipação individualista, que resulta da beatificação da liberdade como valor absoluto e que se reflecte num equilíbrio social "sui generis" que chamaria de confusão organizada.
O metabolismo social vaza de conteúdo valores então aceites. Os ideais amarelecem, desvirtuam-se. A interacção social expontânea constrange-se. As metas a atingir mudam de momento para momento, as leituras do mundo exterior são tantas quantas necessárias. O vazio parece tentador. O conformismo, a falta de entrega e de identificação, o seguidismo mecânico, parecem ser uma resposta à incapacidade prática de vingar, de viver o sonho.
Compreender-se-á pois em certa medida a recusa de reflexão, o assentimento na decisão, a escusa de um caminho solitário. De facto, os caminhos tomados são os mais fáceis. Os ídolos sendo falsos ídolos, servem para cultivar uma imagem que se quer distinta, conduzindo a modas, modelos e hábitos pseudo-elitistas, pseudo-vanguardistas ou pseudo-jovens que ao invés de prazer, felicidade, libertação ou realização se traduzem em insucesso, frustração, desperdício e é claro, grandes ressacas. Se por um lado enfrentar uma realidade atrofiante fugindo dela, ajuda-a a perpetuar-se, os "escapes" utilizados são sem dúvida poluidores: enfraquecem e viciam. Uma análise mais profunda encontrará no entanto outras razões capazes de explicar a abstenção cultural e ideológica que, não sendo uma atitude universal, parece grassar. É, por um lado, uma forma(inteligente? ) de poupar esforços, argumentos inúteis num estágio inicial, canalizando as suas sinergias para o "improvement" individual, para, num estádio posterior, ter um "status" e uma amplitude de princípios, ideias e projectos passíveis de se encaixarem em qualquer quadrante da vida pública, ou seja, de serem aceites e divulgados. Seria ingénuo pensar sustentar com sucesso opiniões críticas, visões originais e pertinentes sem uma forte implantação, quer intelectual quer em termos de peso social e influência. Desde logo porque, sem visibilidade, não haverá pertinência. As pessoas só seguem "dinossauros", "opinion makers", que gerem os insatisfeitos "jogando" com eles. Parece claro que à "luta" universitária restam os que praticam para o futuro emprego, usando a universidade como trampolim para a ambicionada política( e seus meandros) e a estes todos os segundos despendidos são úteis, e, uns outros, poucos, que, ingénuos, desperdiçam as forças que rentabilizariam o curso. Por outro lado, a velocidade extasiante com que pautamos a vida "come-nos o tempo". Notícias, factos e conhecimentos longínquos ou anteriormente inacessíveis chegam-nos agora quase em directo; somos "bombardeados" com conselhos, opiniões, somos pressionados
e a nossa vontade de absorção é quase infinita. A indiferença com que olhamos fenómenos como a guerra, a pobreza, o suicídio, advém sem dúvida da sua banalização nos media, ao ponto de se assumirem como situações inevitáveis ou até novelescas. O facto mais inacreditável vulgariza-se, o tempo escasseia, parecendo correr à nossa frente. Assim, a nossa margem de lucidez, de análise e de criação é reduzida. A nossa capacidade de doseamento do tempo para as várias vertentes humanas parece desequilibrada, com a recolha maciça de informação a sobrepor-se ao seu tratamento(receptores que somos de opiniões feitas e princípios a seguir) . O entretenimento, o gozo individual, assume-se como algo mecânico, informatizado, ou então desvirtua-se, no ecstasy, no álcool... Busca-se a felicidade? A suprema liberdade? Eis a prova de que demasiada desregulação lança os indivíduos num labirinto no qual muitos acabam por se perder. No entanto, a abstenção criativa dos jovens não depende apenas do seu empenho: os canais por onde deveriam circular ideias, escritos, pensamentos, tomadas de posição inovadoras, analises de conjuntura, quer económica, quer social, quer política, estão "entupidos". Os meios difusores e de enterlocução estão muitas portas à frente ou muitos degraus acima e o que chega de nós ao meio são ecos distorcidos,
resquícios de poder, sujeitos a interpretações de sentido único e a motivações duvidosas.
A percepção de uma sociedade constituída por redes de influência, de tentáculos de ascensão social, de portas que se abrem ou se fecham para a visibilidade e projecção pública, põe de lado méritos actuais e potenciais, criando ineficiência e incompetência onde não poderiam existir, parindo o aparelho burocrático que nos trata com desprezo e visível falta de empenho, do cimo de um pedestal ao qual é impensável apelar. Há assim uma separação inter-geracional( curiosamente assumida por uma geração "instalada" que tem no prelo grandes lutas e a quem se deve a implantação de valores hoje inquestionáveis ) que coloca o jovem num patamar de maturidade e de pertinência algo estanque e inconsequente, onde tendo voz não é ouvido(seja porque é imaturo e irresponsável, por paternalismo ou por apego a situacionismos, aliás compreensíveis). O jovem deve adoptar, no jogo que é a vida, a estratégia ganhadora, "colando-se", livrando-se de "sentimentos sociais antiquados" e valores asfixiados pelo aparente sucesso de uma aparente sociedade de bem-estar. E aparente porque, sendo de bem-estar, concilia-se com 25% de pobres, centenas de milhar de desempregados, homeless, exclusão, cadeias superlotadas, insegurança, reformas de vinte e poucos mil escudos, abortos ilegais, toxicodependência... A exclusão é a forma da democracia proibir, impedindo a auto-realização, criando uma franja de "homens-lixo", quase sempre invisíveis, algumas vezes, estorvando. O desigual acesso à saúde, à educação, à segurança social por um lado, e a pobreza insustentável de inúmeras famílias por outro, mantêm milhares de crianças a trabalhar( o trabalho infantil acabará com o propiciar de condições dignas às famílias e, aos jovens, condições de partida mais equilibradas), "apaga" da sociedade centenas de milhares de desempregados. Há tanta coisa que "Zés" e "Marias" são livres de fazer e nunca poderão efectivamente fazer. Para que querem eles essa liberdade? Para que lhes serve a bela lei constitucional? 
A descredibilização da democracia surge tanto pela própria política como pela imperfeição do sistema de libre competição que, por sua vez, vicia a definição do mérito intelectual e cultural. As condicionantes económicas, sociais e políticas que se nos colocam moldam-nos e colocam-nos num determinado patamar com determinadas obrigações e certas(limitadas) possibilidades de escolha. Muitos de nós combatemos esta organização social, por vezes quase inconscientemente e não com as melhores armas. O descrédito que atribuímos às instituições e aos responsáveis políticos resulta das suas constantes jogadas, de avanços e recuos, de compromissos que se quebram, de necessidades que se usam para obter ganhos políticos. O uso político do desespero, o facto de se dizer( por dizer) o que as pessoas anseiam por ouvir, acabou por divorciar as pessoas não só da democracia mas também de quaisquer lutas comuns, negando a possibilidade de juntas poderem ter força reivindicativa, desacreditando quem legitima e credulamente venha a defender qualquer ideal mais nobre. Como disse António Lobo Antunes:" Os políticos só têm um único projecto- conquistar o poder. E, para tal recorrem à utopia de dizer que é para bem das pessoas".
A abstenção que surge deste desinteresse não resulta senão de um equívoco, pois estão normalmente em causa opções com diferentes implicações na vida dos indivíduos. É além disso uma decisão hipócrita pois embora não participando, os indivíduos sentir-se-ão em algum momento lesados, insurgindo-se aí, quando também o seu comportamento pesou na decisão. Ora, compreendendo este presente(e não o presente que gostaríamos de ter ou aquele que nos pintam e que muitos de nós simplesmente assimilamos) daremos um passo para um futuro interventivo, que ganharia com uma geração potenciadora de inovação, de líderes, de novas
visões económico-sociais, de uma nova forma de estar menos discriminadora, não sectarista, cultivando uma personalidade mais aberta e mais imparcial.
Há algumas perguntas para as quais devíamos procurar respostas: Quem ensinará os jovens de amanhã, nas escolas e universidades deste país?
Quem irá gerir as empresas, as instituições e os organismos públicos? Quem irá escrever livros, criar correntes de pensamento, "alimentar as massas", inovar, inventar(porque não)? Quem irá actuar no âmbito da Justiça e da Saúde? Seremos nós? Se sim, onde está então o nosso lugar na construção do amanhã, de um futuro melhor, à nossa medida? Onde está a peculiar visão do presente e a análise inovadora das medidas que condicionarão o nosso desempenho futuro? Onde está a crítica sustentada à "condução" das nossas vidas?
Não teremos nós perspectivas políticas(excluídos os "jotas" e os "yes men" )? Não seremos nós um prisma, diferente mas capaz, de ver o mundo: os regimes autoritários, a globalização, os riscos económicos, a Justiça(mais a falta dela ), a Democracia, a Guerra?
Não devíamos ser nós um "parceiro estratégico" do poder na definição de um futuro que será nosso(inevitavelmente) e sobre o qual temos o dom de actuar, potenciando-o?
É um erro herdarmos um futuro sem lhe termos definido os contornos, sem termos uma palavra a dizer. À luz de um desenvolvimento sustentável caber-nos-ia a nós ter um papel interventivo nas instituições e nos órgãos de comunicação. Não só na compreensão do presente mas também nas
decisões que nos tocam e limitarão as nossas escolhas. Há que quebrar este nacional pessimismo que fomos aceitando, acrescido por vezes de uma nacional pequenez que não deixa de ser uma adaptação a cores dos valores da outrora "casa portuguesa", com as "quatro paredes caiadas" e o "cheirinho a alecrim". Restringir a ambição justa de um povo, condenando-o a um papel a todos os níveis secundário, não se coaduna com o pioneirismo do passado, com a expansão marítima, com Camões, nem sequer com o presente: a integração europeia, a expo98, o Nobel de Saramago (sucessos que se objecto de referendo nunca seriam realidade), e serve apenas a perpetuação de uma ordem que quase nos fez(se não fez mesmo) olhar orgulhosamente para o passado, viver passivamente o presente e aceitar um futuro medíocre.
As limitações ao desenvolvimento existindo(pequena dimensão territorial, escassez de recursos naturais, problemas estruturais graves...) não são já decisivos: a aposta (real)na educação actuaria como força impulsionadora da inovação e surgiriam novos produtos, novas utilizações, novos processos de produção e organização, enfim, formas sustentadas de ultrapassar dependências crónicas(temos para tal vários exemplos de sucesso)...
A aposta clara na educação tem no entanto alguns "inconvenientes". A emancipação intelectual dos indivíduos, com repercussões na capacidade de discernimento, lança os alicerces para uma vontade solidamente construída, finando a ditadura do medo, substituída por uma participação crítica. Seria o avanço para o fim do abstencionismo ignorante. A ditadura do espectáculo( paradigmática no Brasil)que produz um triplo efeito, "embrutece", distrai e controla, perderia o seu efeito decisivo. É inegável o papel da televisão(mais do que a imprensa escrita, a rádio ou outras) na definição das tomadas de decisão, na formação da personalidade e até nas atitudes e comportamentos do dia-a-dia. É por ela que sabemos a verdade, vibramos com a ficção, "descobrimos" sonhos, construímos cenários...
Surgiria entretanto um povo consciente, que já não recearia fantasmas e muito menos acreditaria no paraíso(e nas suas imensas variantes: oásis, comboio, paixão...).Já não seria possível dizer às pessoas que com a regionalização o norte independentista, o Algarve, as Beiras, constituiriam
as suas ETAs para combater Lisboa, que os impostos e a corrupção asfixiariam o país ou, o reverso da medalha, que seria ela o milagre por que o interior tanto porfia, que sararia todos os males.Que importância daríamos então à comparação da despenalização do aborto com o holocausto nazi?
Como poderiam convencer-se as pessoas a votar no símbolo x, na cor tal, no quadradinho A?...
A verdade é que a realidade é apercebida de forma diferente e diferente é também a reacção de cada um. A dúvida, a indiferença, a impotência, o receio, são as mais comuns. Sobre a mesa está a inevitabilidade de vencer, de jogar o melhor possível este jogo de astúcia e recatada sabedoria.
Cabe-nos a nós um outro sentimento: a revolta. Não uma revolta dirigida, necessariamente lesiva a alguém(e por isso perdedora), mas uma revolta qualitativa, na crença de que uma mudança poderia trazer ganhos a todos, como que se de um jogo de soma positiva se tratasse: ganhos de eficiência, de participação criativa, de inovação, realização pessoal, verdadeira paz social. É imprescindível atribuir ao indivíduo uma vontade própria, por onde deva ser "filtrado" o conhecimento que "entra", aferindo da sua veracidade, aplicação efectiva e sincera motivação. E ela só poderá surgir com uma educação completa e interactiva(não se poderá exigir que seja imparcial, caber-nos-à a nós ter um espírito aberto e atingirmos um estádio de assimilação consciente). Cabe-nos exigir(se não o impossível) o fim da hipocrisia das falsas apostas, denunciar o obsoletismo do ensino, quer de conteúdos, quer de fórmulas, quer de meios, quer de disponibilidade. Acordar da letargia a que nos conformamos e provar que o passado português não foi fruto do acaso e que a nossa resposta não é a dúvida. Quando os alunos chegam a uma sala de aula e não tem lugar, ou querem almoçar e não existe cantina, quando o professor "despeja" a matéria exigindo não ser interrompido, quando o conteúdo das cadeiras "cheira a mofo" de tão desajustado ao presente, quando se dão aulas de acetatos que ninguém vê, se fazem horários de aulas e de exames pensando em último lugar nos alunos, se dão bolsas a quem não devia e não se dão a quem merecia(isto porque a reforma fiscal parece não interessar a ninguém e muito menos a quem tem poder para a fazer),quando as residências são insuficientes, quando as "barreiras" aluno/professor; aluno/dirigente estudantil; aluno/instituição de ensino limitam a iniciativa e a participação do estudante, neste mundo rosa-amarelo, alguma coisa vai mal para que nem nós próprios, sabendo-o, não acreditemos na nossa força. O "grosso" estudantil parece entender estes factos como inevitabilidades às quais se respondeu da melhor forma possível. 
Não me parece pois que estejamos conscientes do nosso papel amanhã(ou pelo menos que ele será desempenhado em interacção
social) e que esse papel depende fortemente da estratégia e das escolhas feitas hoje.
E, se nos encontramos feitos néscios, teimando em diferentes direcções, julgando assim chegar a algum lado(o que para alguns até é bem verdade) é também porque não houve até agora a capacidade(e/ou vontade) dos nossos dirigentes estudantis de nos "acordar" da nossa "viuvez" intelectual, unindo-nos na contestação aquilo que verdadeiramente concordamos estar errado ou que pode vir a ser melhorado. As diferenças de base que existem nas nossas convicções seriam assim canalizadas para as várias soluções, não acentuando as deficiências de um sistema numa medida ridícula(as propinas),destituindo-nos da razão e apresentando-nos como imaturos e irresponsáveis à luz da opinião pública. Fazemos indubitavelmente parte do círculo vicioso: abstemo-nos porque pressupomos nada poder alterar. Enquanto isso "os galos continuam nos seus poleiros" amparados pelo enraizar de uma cultura abstencionista, pelo descrédito que depositamos não só neles, mas também em nós mesmos. Outros há onde cresce uma sensação de impotência, de falta de canais de expressão e natural cepticismo acerca dos valores e princípios que regem a sociedade actual . A mutação dos valores tradicionais por novas formas de estar e de relacionamento que privilegiam o bem-estar e a satisfação individual tornam a nossa geração opaca, incapaz de se assumir e defender ideias e valores para além de um consumismo mecânico, de uma massificação cultural, de uma passividade comprometida. Confunde-nos a dificuldade em estabelecer limites, em distinguir o importante do acessório, em definir prioridades. Quando assim é torna-se difícil "descongelar" socialmente o indivíduo. As suas vitórias são individuais, as prioridades servem o seu alter-ego.
O fim só a ele diz respeito: é o proveito máximo. A concordância é instável. A abstenção é a saída. Hipócrita? Sim . Frutuosa? Porque não? 
Reaccionária? Também.

Luís Martins

 

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PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra