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"Doravante,
todas as crianças, todos os adolescentes e todos os adultos se encontram numa
encruzilhada em que se vêem obrigados a escolher: ou esgotarem-se num mundo que
a lógica da rendibilidade a todo o custo esgota, ou criarem a sua própria
vida, criando um ambiente que lhes assegure plenitude e harmonia. A vida
quotidiana não pode continuar a confundir-se com isto, com esta manta de
remendos a que a reduziram os homens que produzem a mercadoria e que por esta são
produzidos."
Raoul Vaneigem
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A pequenez no consenso
O grande feito da pós-modernidade
é fazer-nos crer que o mundo em que nos calhou viver é normal, encerrando
em si a inevitabilidade e a perfeição. A nós, pseudo-indivíduos, nada
mais nos resta fazer do que ir vivendo segundo os cânones da normalidade
assim definida, posta definitivamente de lado a possibilidade de vivermos de
acordo com a nossa consciência. Se ousarmos a diferença, a reprovação
surge de imediato – a classe dominadora assegura a sua sobrevivência pela
transferência do ónus da acusação para a generalidade dos pseudo-indivíduos:
o grande capital não tem rosto, e sabe-se como a dominação com rosto pode
ser frágil, por permitir um direccionamento mais eficaz das forças
subversivas.
A lenta e mais ou menos
progressiva tomada de consciência constitui-se como sentido da História
– não poucos o tentam ignorar, mas a verdade não se molda de acordo com
as conveniências de determinados grupos sociais interessados na manutenção
ad eternum das suas posições. O Homem persegue-se a si próprio ,
numa busca incessante do seu desenvolvimento pleno, o que pressupõe a busca
da liberdade, surgindo esta necessariamente do combate travado entre aqueles
que a não possuem e a classe dominadora. É a luta de opostos que anima a
História, sendo que é ao imprevisto e/ou à circunstância que cabe a
definição das formas concretas que essa luta assume. Obviamente, leituras
materialistas e dialécticas redutoras ou unicentradas não são competentes
para abarcar toda a complexidade dos fenómenos históricos e sociais. O
princípio do materialismo dialéctico deve ser utilizado de forma
descomplexada, precisamente porque essa é a única forma de atingir o que
de mais complexo existe em nós e nas nossas vidas (note-se que não se
pretende com isto proceder a qualquer espécie de pequeno revisionismo ou de
pequena reabilitação; não serei eu, certamente, aquele que há-de pôr
fim ao injusto obscurantismo em que esta escola de pensamento se encontra).
A luta existe e, como
sempre, continua. De um lado, a dominação, o poder ilegítimo, a
animalidade insensível; do outro, o oprimido irrequieto, o vanguardismo
pugnando pela lucidez, o desejo obstinado, a reserva imperecível do
humanismo.
O hoje que vivemos não é,
em conteúdo, diferente do Ontem que passou, e a identificação dos pólos
em confronto surge sem esforço. Quem domina? O grande poder económico, que
tudo subjuga ao sumo valor desta era: o lucro. Quem é dominado? O
consumidor, o assalariado, o cidadão (este último por via da subserviência
do Estado nacional ao capital transnacional). Note-se, todavia, que os
contornos que enformam as relações de dominação actuais são
substancialmente diferentes daqueles que caracterizavam as existentes no
passado. Estas, apesar de diversas entre si, apresentavam um traço comum de
grande importância: a relação de dominação era simples, dado que o foco
de dominação era, normalmente, único e visível. O assalariado da Revolução
Industrial ou o operário do capitalismo de Estado repressor estalinista
poderia identificar facilmente o responsável pela exploração de que era
alvo. Hoje, as gigantescas organizações detentoras do capital são
verdadeiramente autónomas, ou seja, constituem-se como entidades
supranacionais que se regem por directrizes emanadas do éter, sem que
exista alguma possibilidade de os trabalhadores identificarem as pessoas
responsáveis pelo uso, abusivo por definição, da força de trabalho
alheia. Consegue-se deste modo a mais magnífica das ilusões, que é fazer
crer ao pseudo-indíviduo que a História deixou de se fazer através das
relações entre pessoas, ensinando-o a reagir a uma sigla ou a um logotipo.
Aliás, o uso do símbolo para o engano deixou, na nossa era, de ser
exclusivo da religião – o capitalismo presente chamou a si a tarefa da
justificação transcendental de si mesmo, através da massificação do
consumo, que se traduz na venda de uma concepção de bem-estar que se
pretende inquestionável. Como se sabe, a enorme capacidade produtiva que
este sistema demonstra impõe que a exploração deixe de se fazer apenas a
montante, isto é, ao nível da produção, mas também a jusante, ao nível
do consumo, o que surge como algo de profundamente inovador. Não se
socorrendo apenas de uma cor e de hinos monocórdicos, como foi feito na
ex-URSS ou na Alemanha nazi, o sistema bombardeia o indivíduo com uma orgia
permanente de luz e som a que pomposamente se convencionou denominar de
informação, usando aqui da exploração em rede: os focos de dominação
encontram-se ocultos (tal como, cada vez mais, na exploração a montante) e
dispersos (e mesmo caminhando as economias para a concentração empresarial
as marcas mantêm-se. pois a sua diversidade equivale a poder dispor de um
leque mais alargado de instrumentos de dominação), introduzindo
subtilmente nas nossa vidas comportamentos de ablação da individualidade,
através dos quais o ser se prostra perante o ter. O pensador francês Guy
Debord, em "A Sociedade do Espectáculo", descreve bem este fenómeno:
"Ainda que na fase primitiva da acumulação capitalista a economia política
não veja no proletário senão o operário que deve receber o mínimo
indispensável para a conservação da sua força de trabalho (…), esta
posição das ideias da classe dominante reinverte-se assim que o grau de
abundância atingido na produção das mercadorias exige um excedente na
colaboração do operário. Este operário, subitamente lavado do desprezo
total que lhe é claramente feito saber por todas as modalidades de organização
e vigilância da produção, reencontra-se, cada dia, fora desta,
aparentemente tratado como uma grande pessoa, com uma delicadeza obsequiosa,
sob o disfarce do consumidor. (…) A falsa escolha na abundância
espectacular, escolha que reside na justaposição de espectáculos
concorrenciais e solidários desenvolve-se numa luta de qualidades fantasmagóricas
destinadas a apaixonar a adesão à trivialidade quantitativa (…) O
devir-mundo da mercadoria é também o devir-mercadoria do mundo."
Nisto nos tornamos.
Pensarmos que somos mais do que simples peças de uma engrenagem fantástica
e, como diz Debord, espectacular na sua essência, é iludirmo-nos.
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A lucidez que rareia
O homo economicus
perfeitamente racional, pressuposto essencial da família de teorias que
justificam o capitalismo actual, vê-se desmentido no quotidiano, a não ser
essas teorias entendam por racionalidade dos indivíduos a capacidade de estes
se comportarem de acordo com a racionalidade dos grandes poderes económicos.
Definindo, grosso modo, a racionalidade como a capacidade de os agentes económicos
tomarem decisões que maximizam o seu bem-estar (o que pressupõe
independência de pensamento, isto é, implica formar opiniões a partir de
informação, e não consumir juízos de valor pré-fabricados), basta um
breve, contudo atento, olhar sobre a realidade que nos rodeia e sobre nós próprios
para nos apercebermos que não somos, neste sentido, realmente racionais.
Apesar dos raciocínios que precedem a nossa tomada de decisão aparentarem
independência, a verdade é que estão viciados à partida. A informação
que consumimos não passa, no mais das vezes, de instrumentos para o atrofio
da nossa autonomia, sendo objecto de cuidadas filtragens e manipulações cujo
objectivo não é outro senão formar em nós, com uma precisão cirúrgica, a
opinião que já não sabemos nem podemos formar. Assemelhamo-nos ao cão das
experiências de Pavlov: os nossos reflexos, tal como os dele, estão
condicionados. Reagimos maquinalmente a impulsos exteriores, assumimo-nos como
entes desprovidos de vontade, e parecemo-nos orgulhar disso. A nossa
capacidade de indignação e luta perde-se algures entre a sala-de-estar
dominada pela televisão e o júbilo que sentimos ao adquirirmos um novo telemóvel,
entre a mediocridade dos media e a nossa própria mediocridade.
Senão, veja-se. O desemprego
e a exclusão social motivam crescentes tensões sociais, que não raramente
se traduzem no ódio racial ou religioso, discussões perfeitamente laterais
que convém sobretudo aos poderes estabelecidos. Quem culpa os responsáveis
pela quase completa liberalização da circulação internacional de capitais,
que permite às empresas transnacionais deslocarem o investimento para os países
onde a protecção ao trabalhador é quase inexistente? O que dizer, por
exemplo, das grandes marcas internacionais de vestuário, que gozam de
excelente imagem junto da população dos países desenvolvidos (fruto de
excelentes campanhas publicitárias) e que exploram o trabalho infantil na
Indonésia, no Paquistão, em Portugal, etc.? E da chantagem que esses
potentados económicos exercem junto dos Estados, exigindo subsídios para a
criação de empregos, criando-os depois em muito menor número do que o
acordado e abandonando o país logo que a conjuntura se preste a isso, sabendo
que as indemnizações a pagar (quando existem) são irrisórias quando
comparadas ao lucro que advém dessa deslocação? Estas situações já não
indignam o pseudo-indivíduo, porque o sistema se encarregou de o transformar
numa besta acrítica e apática, à qual apenas cabe desempenhar dois papeis:
produção e consumo.
Assim descrito o presente,
restar-nos-ia depositar todas as esperanças no futuro. Aqui, não escondo o
meu cepticismo. A pequenez a que chegamos está patente em inúmeros aspectos
do nosso dia-a-dia, aborrecido e corriqueiro. O nível cultural médio do
estudante do ensino universitário deveria envergonhar todo aquele que o
frequenta. Formam-se máquinas de executar ordens, e não homens e mulheres
conscientes da sua individualidade e da sua relação com o mundo e com o
outro – tudo se comercializa, até o próprio saber. Os alunos preferem
consumir entretenimento plastificado (televisão, desde logo, mas também
existem cinema, livros, música e até mesmo teatro de plástico, como se
sabe) a contactar com a arte e/ou com o pensamento. Opina-se alegremente sobre
tudo e sobre nada, discute-se a politiquice mediática (ele própria reduzida
à condição do produto) sem se ter o mínimo conhecimento das ideologias que
deveriam sustentar os partidos políticos. O cenário, que estes exemplos
(alguns entre tantos outros) ilustram, é desolador, e desaconselha qualquer
espécie de optimismo ingénuo.
Impõe-se, por tudo isto e
por muito mais, o regresso da discussão e dos esforços de reflexão e luta
às nossas vidas. Como Vaneigem diz, encontramo-nos numa encruzilhada. A nós,
e a mais ninguém, compete escolher o caminho que pretendemos trilhar.
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