Franz Kafka
Breve incursão à Vida e Obra
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"Escrever...é um
sono mais profundo que a morte...assim como ninguém tiraria um cadáver do
seu túmulo, eu não posso Franz Kafka começou a escrever aos 15 anos . Infelizmente, quase todos os textos dessa época foram queimados pelo próprio escritor, quando tinha 24 anos, depois de uma crise em relação ao seu trabalho de escrita. Nenhum dos romances de Kafka foi publicado durante a sua vida. Apenas alguns contos eram publicados em jornais e revistas. Os maiores admiradores dos seus trabalhos eram os seus amigos, que insistiam para que ele as enviasse para editoras e jornais. A sua vida social era bastante activa, fazendo parte do seu círculo de amigos, intelectuais ligados ao mundo literário. Em 1902 conhece Max Brod, que se torna o seu amigo mais íntimo e que vai ter um papel importante na divulgação das mais admiradas obras de Kafka. As Obras América é o primeiro
romance de Kafka. O jovem Karl Rossman é expulso de casa pelos pais depois de
ser seduzido por uma criada e de a engravidar e é enviado para a América
para viver com um tio bem sucedido. Logo nesta obra nos sentimos no mundo de
Kafka, com a personagem a ser castigada sem culpa; e o tio bem sucedido na
figura de autoridade, um pouco ao nível de Hermann Kafka. Rossman, ao contrário
de Kafka ao longo da sua vida, vai demonstrar rebeldia e desobediência em
relação ao tio e também para com outras figuras de autoridade da obra.
No livro O Processo a inacessibilidade da autoridade é levada ao
extremo. Numa manhã, K., a personagem da história, acorda com dois homens
que vieram para o prender. K. não sabe o motivo porque é preso e julgado. Ao
longo da história K. vai tentando perceber e vai juntando informação. No
fim, quando é condenado à morte, já não tenta perceber mais nada: onde
estava o juiz que nunca viu? E o tribunal supremo onde nunca havia chegado?
Quando Kafka contou passagens d´O Processo aos amigos, diz-se que se
riu incontrolavelmente. A mim parece-me mais uma história para se ficar Kafka e as mulheres Franz Kafka teve relações
importantes com 4 mulheres, três das quais exclusivamente por carta - Felice
Bauer, Grete Bloch e Milena Jesenka. Milena foi provavelmente a única mulher
que realmente amou, como se depreende das Cartas a Milena muito
diferentes das Cartas a Felice (ambas publicadas). Mas estas suposições
só podem ser tidas como interpretações de vários autores que especulam
sobre a vida de Kafka. A sua inibição perante as mulheres foram a causa do
rompimento de dois noivados com Felice Bauer e de uma relação atribulada com
Milena. Nas suas obras as mulheres também tinham o seu papel, mas nenhuma tem
existência própria. Antes serviam de distracção para as personagens
masculinas, apesar da confiança que tinham nelas. No fim de cada episódio no
qual o personagem tem de encontrar o seu caminho pelo labirinto, especialmente
n´O Processo (no tribunal e na casa do advogado) e n´O Castelo
(na estalagem), há sempre uma mulher Max Brod A Max Brod temos a agradecer a
divulgação da obra daquele que foi o primeiro grande escritor existencialista
deste século. A falta de confiança no seu trabalho levou Kafka a pedir, antes
de morrer, que todos os seus manuscritos ainda não publicados fossem destruídos.
Max Brod, que foi encarregue da execução da sua vontade, não a cumpriu,
publicando O Processo, O Castelo e América em 1925, 1926 e
1927 respectivamente. Publicou ainda uma série de pequenas histórias - A
Grande Muralha da China - em 1931. As personagens destas histórias falham
ao tentarem estabelecer comunicação com outros; sofrem incidentes de extrema
violência; são vozes de angustia, procurando, em vão, entender o mundo e a
sua própria identidade. Não escapam assim às marcas dominantes dos escritos
de Kafka. As histórias de Kafka são uma mistura do normal e do fantástico;
são uma simbiose com a sua própria vida de isolamento e incompreensão. O
desespero e angustia de nunca chegar a entender, a incapacidade para uma rebelião
contra um sistema social ao qual não se conseguia adaptar, com um sentimento de
culpa sob o qual construiu a sua existência. A obra reflecte a procura da
auto-estima que lhe fora retirada pelo pai e a falta de segurança de uma
sociedade que rejeitava os judeus, com os quais nunca se identificou mas dos
quais não se onseguia dissociar. O que mais impressiona em Kafka é o
sofrimento espiritual de um homem fora de todos os padrões do comum. E não são
esses que mais curiosidade suscitam? Agora só me resta sugerir que peguem num
dos seus livros e entrem num mundo de situações "kafkianas". A
maneira como vês o que te rodeia nunca mais vai ser a mesma. Cláudia Antunes
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PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra