Franz Kafka, um judeu de Praga, era descrito pelos amigos como um homem que vivia atrás de uma parede de vidro. A emoção que lhe faltou na vida, compensou-a com a imaginação das suas histórias. Kafka criou uma linguagem literária única, sob a qual se escondia através das personagens bizarras que criava para as suas obras. Pouco conhecido como escritor enquanto vivo, o seu trabalho é agora reconhecido como simbolizando a ansiedade do homem que vive num mundo indiferente, incompreensível e hostil. Kafka nasceu em Praga, que na altura do seu nascimento - 1883 - era ainda parte do Império da Boémia, onde várias nacionalidades, línguas, religiões e orientações políticas coexistiam. Para alguém como Kafka um judeu checo de língua alemã, foi difícil formar uma identidade cultural. Filho de Hermann e Julie Kafka, tinha três irmãs: Valli, Elli e Ottla. A sua relação com o pai, um comerciante autoritário, domina todas as discussões que rondam a sua vida e obra. Na sua famosa Carta ao Pai, escrita em 1919, ele responsabiliza-o, através de um longo desabafo, pela sua incapacidade de viver, casar e amar como os outros. Na incapacidade de dar a carta pessoalmente ao pai, ele deixou a tarefa para a mãe, que depois de a ler, achou melhor não fazer a entrega. Aluno exemplar e doutorando em Direito em 1906, Kafka entrou para uma companhia de seguros, a Assocurazione Generalli, que lhe dava segurança financeira mas que o impediu de dedicar-se apenas à literatura. Um ano mais tarde, deixa esta companhia para ir trabalhar para
a companhia semi-estatal Arbeiter-Unfall-Versicherungs. O horário regular do escritório permitiu-lhe que trabalhasse de dia e escrevesse de noite. Nos seus diários, há diversas descrições de noites inteiras de insónias, que passava a escrever, para no dia seguinte ir para o escritório exausto.

"Escrever...é um sono mais profundo que a morte...assim como ninguém tiraria um cadáver do seu túmulo, eu não posso
ser tirado da minha secretária à noite."

Franz Kafka começou a escrever aos 15 anos . Infelizmente, quase todos os textos dessa época foram queimados pelo próprio escritor, quando tinha 24 anos, depois de uma crise em relação ao seu trabalho de escrita. Nenhum dos romances de Kafka foi publicado durante a sua vida. Apenas alguns contos eram publicados em jornais e revistas. Os maiores admiradores dos seus trabalhos eram os seus amigos, que insistiam para que ele as enviasse para editoras e jornais. A sua vida social era bastante activa, fazendo parte do seu círculo de amigos, intelectuais ligados ao mundo literário. Em 1902 conhece Max Brod, que se torna o seu amigo mais íntimo e que vai ter um papel importante na divulgação das mais admiradas obras de Kafka.

 As Obras

América é o primeiro romance de Kafka. O jovem Karl Rossman é expulso de casa pelos pais depois de ser seduzido por uma criada e de a engravidar e é enviado para a América para viver com um tio bem sucedido. Logo nesta obra nos sentimos no mundo de Kafka, com a personagem a ser castigada sem culpa; e o tio bem sucedido na figura de autoridade, um pouco ao nível de Hermann Kafka. Rossman, ao contrário de Kafka ao longo da sua vida, vai demonstrar rebeldia e desobediência em relação ao tio e também para com outras figuras de autoridade da obra.  No livro O Processo a inacessibilidade da autoridade é levada ao extremo. Numa manhã, K., a personagem da história, acorda com dois homens que vieram para o prender. K. não sabe o motivo porque é preso e julgado. Ao longo da história K. vai tentando perceber e vai juntando informação. No fim, quando é condenado à morte, já não tenta perceber mais nada: onde estava o juiz que nunca viu? E o tribunal supremo onde nunca havia chegado? Quando Kafka contou passagens d´O Processo aos amigos, diz-se que se riu incontrolavelmente. A mim parece-me mais uma história para se ficar
terrivelmente deprimido...
 Em O Castelo, surge mais uma vez uma autoridade inatingível. Mas aqui, em vez de uma justiça que julgava e castigava implacavelmente como n´O Processo, ela é completamente indiferente e não se manifesta. K., mais uma vez a personagem deste livro, é contratado para trabalhar numa pequena aldeia mas nunca é reconhecido, pela autoridade instalada num castelo, para o posto a que foi designado. A sua presença na aldeia parece ter sido culpa de um erro burocrático sobre a necessidade de um agrimensor. Devido ao facto de nunca ter sido acabada, esta obra é alvo de inúmeras críticas e estudos pois foi deixada em aberto a intenção do escritor. Mas, na minha opinião, os mais fascinantes escritos de Kafka são A Metamorfose e O Covil. Logo na primeira frase, ficamos a saber da metamorfose de Gregor Samsa. Transformado num insecto, Samsa não podia mais ir trabalhar para sustentar a família. Fechado num quarto pela repugnância da família, nada mais lhe restava do que explorar as suas novas capacidades de subir paredes e ficar suspenso no tecto
ou ouvir as conversas da família através da porta. Talvez uma forma de Kafka descrever como se sentia ao ser constantemente rebaixado pelo pai com a dureza das suas palavras: um ser repugnante que só desaparecendo poderia deixar a família viver com felicidade. O que mais conta nesta história é, não o sofrimento de Gregor Samsa, mas aquele que é inadvertidamente infligido à família. Neste conto, como nas restantes obras do escritor, a única hipótese das personagens é a adaptação às adversidades. Não há confronto possível, nem cura nem escolha possível senão a adaptação. Esta sensação de impotência era um tema constante nas suas obras.  N´O Covil, uma das poucas obras na primeira pessoa, uma toupeira constrói um emaranhado de túneis e armazéns de alimentos, criando assim um fortaleza que o protegia de todas as ameaças do exterior. Kakfa fantasiava com o local de trabalho perfeito, onde o silêncio reinava, desligado por completo do mundo. A comida era-lhe levada e ele teria apenas que se deslocar numa curta distancia para a conseguir, comendo-a logo de seguida antes que algum contacto humano o fizesse perder a concentração.  Ele sempre gostou de se transformar em animais, sendo os seus favoritos os rastejantes ou que se escondessem com facilidade. Kafka "transformou-se" num cão em "Investigações de um cão", num macaco que se tinha tornado meio humano em "Report to the academy" e um rato cantor em "Josephine, a cantora". 

 Kafka e as mulheres

Franz Kafka teve relações importantes com 4 mulheres, três das quais exclusivamente por carta - Felice Bauer, Grete Bloch e Milena Jesenka. Milena foi provavelmente a única mulher que realmente amou, como se depreende das Cartas a Milena muito diferentes das Cartas a Felice (ambas publicadas). Mas estas suposições só podem ser tidas como interpretações de vários autores que especulam sobre a vida de Kafka. A sua inibição perante as mulheres foram a causa do rompimento de dois noivados com Felice Bauer e de uma relação atribulada com Milena. Nas suas obras as mulheres também tinham o seu papel, mas nenhuma tem existência própria. Antes serviam de distracção para as personagens masculinas, apesar da confiança que tinham nelas. No fim de cada episódio no qual o personagem tem de encontrar o seu caminho pelo labirinto, especialmente n´O Processo (no tribunal e na casa do advogado) e n´O Castelo (na estalagem), há sempre uma mulher
à espera com uma espécie de conforto. Em 1917 é-lhe diagnosticado tuberculose e daí por diante passa vários períodos em sanatórios. Em 1923 vai viver para Berlim com Dora Diamant numa tentativa de fugir da família e para se dedicar à escrita. Com Dora encontra finalmente uma vida calma que nunca tinha conseguido com nenhuma mulher. O casal sonhava em ir viver para Tel Aviv e abrir um restaurante, onde Dora se encarregaria de cozinhar e kafka...serviria as mesas!!!
Em 1924, volta a Praga devido à deterioração do seu estado de saúde e vem a morrer numa clínica perto de Viena, na companhia de Dora.

Max Brod

A Max Brod temos a agradecer a divulgação da obra daquele que foi o primeiro grande escritor existencialista deste século. A falta de confiança no seu trabalho levou Kafka a pedir, antes de morrer, que todos os seus manuscritos ainda não publicados fossem destruídos. Max Brod, que foi encarregue da execução da sua vontade, não a cumpriu, publicando O Processo, O Castelo e América em 1925, 1926 e 1927 respectivamente. Publicou ainda uma série de pequenas histórias - A Grande Muralha da China - em 1931. As personagens destas histórias falham ao tentarem estabelecer comunicação com outros; sofrem incidentes de extrema violência; são vozes de angustia, procurando, em vão, entender o mundo e a sua própria identidade. Não escapam assim às marcas dominantes dos escritos de Kafka.  As histórias de Kafka são uma mistura do normal e do fantástico; são uma simbiose com a sua própria vida de isolamento e incompreensão. O desespero e angustia de nunca chegar a entender, a incapacidade para uma rebelião contra um sistema social ao qual não se conseguia adaptar, com um sentimento de culpa sob o qual construiu a sua existência. A obra reflecte a procura da auto-estima que lhe fora retirada pelo pai e a falta de segurança de uma sociedade que rejeitava os judeus, com os quais nunca se identificou mas dos quais não se onseguia dissociar. O que mais impressiona em Kafka é o sofrimento espiritual de um homem fora de todos os padrões do comum. E não são esses que mais curiosidade suscitam? Agora só me resta sugerir que peguem num dos seus livros e entrem num mundo de situações "kafkianas". A maneira como vês o que te rodeia nunca mais vai ser a mesma.
 
 

Cláudia Antunes

 

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