Tolerância Zero - Uma solução ou um perigo?
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Em primeiro lugar, gostaria de dar os parabéns ao PHEUK. Acho que é uma iniciativa louvável. Em nenhum outro espaço poderíamos exprimir a nossa opinião sobre diversos assuntos da actualidade e acho que só o facto de a querermos dá-la a conhecer ao público revela que é uma opinião válida.Bom, passando isto, vou dar início a uma série de pequenos textos sobre prevenção rodoviária e o que de bom tem e não tem. Ainda não tenho em mente quantos artigos publicarei, mas em cada um abordarei um dos aspectos da segurança rodoviária.
Em primeiro lugar e para deixar qualquer dúvida que haja, esclarecida, sou totalmente e incondicionalmente contra a Tolerância Zero.
Este comentário pode levantar celeuma, do género, o tipo é um inconsciente, é dos que anda sempre a abrir, não tem respeito pelos outros. Bom, pelo menos uma das coisas é certa... ando sempre a abrir (ou quase). Tenho a impressão que as únicas vezes que mantenho o limite de velocidade é quando passo por ele, vejo uma brigada ou tenho uma pessoa à frente mais lenta que eu.
Isto faz de mim um inconsciente??? Não me parece. Em primeiro lugar, para andar à velocidade que eu ando é necessário ter uma confiança nas nossas próprias capacidades e um conhecimento do veículo que temos nas mãos mais do que bom. Por andar a velocidades elevadas sei o que esperar de mim, sei o que posso e não consigo fazer, etc. Por outro lado, pouco tempo depois de ter o meu carro fui dar uns piões e umas curvas a alta velocidade para a zona dos Pólos II quando aquilo ainda estava em construção (um sítio deserto, portanto). Isto fez com que eu conhecesse as reacções do meu carro às diferentes atitudes que eu tinha perante ele. Hoje em dia posso dizer que consigo prever antecipadamente a maioria das reacções do meu carro.
Em relação à inconsciência de andar depressa, posso dizer que uma pessoa que ande depressa sabe onde o pode fazer. Também é um facto que existem alguns condutores que agem como se a estrada (e o mundo) fosse deles, sem qualquer respeito por ninguém. Vou citar os casos dos que andam com os faróis de nevoeiro ligados (quer os traseiros, quer os dianteiros - ambos os casos proibidos por lei), dos jovens que resolvem "cortar" curvas em estradas movimentadas e, para mim o caso mais crasso, os condutores que indo a uma velocidade consideravelmente inferior, sofrem do que chamo o "Síndroma do Comunismo", ou seja, não saem da faixa esquerda da estrada. Isto tudo para dizer que não é a tolerância zero a solução para o impedimento de desastres na estrada. Os números deste ano confirmam isso. O número de acidentes, feridos graves e feridos ligeiros aumentarem em relação ao ano passado, só o número de mortes diminuiu (o que é sempre de louvar), o que não é de estranhar, devido à moderação da velocidade. O que isto quer dizer é que a tolerância zero não diminuiu os acidentes, apenas a gravidade deles.
Qual a solução, poder-me-ão perguntar. Óbvio que não sou nenhum mago que tenha as soluções debaixo da manga. O certo é que tenho algumas opiniões acerca disso: a) Os condutores deveriam estar mais bem preparados. Não é a velocidade que mata ou que provoca acidentes, é a impreparação dos condutores para ela. Pessoalmente, acho que se deveria instituir diferentes níveis de cartas de condução: conforme o grau de preparação do condutor, diferente seria o limite de velocidade imposto sobre o condutor. Por outro lado, os próprios carros deveriam ter também diferentes limites de velocidade: Um Ferrari não é um FIAT Punto e têm os mesmo limites de velocidade. Por isso, suponhamos que um condutor que tivesse uma carta com limite de velocidade de 150 km/h e conduzisse um carro limitado a 130 km/h teria como limite de velocidade, o limite de velocidade mais baixo, neste caso o de 130 km/h. O mesmo se passaria ao contrário: um condutor com limite de 100km/h a conduzir um carro com limite de 180km/h teria de se sujeitar aos 100km/h. Isto porque o aumento do limite de velocidade dos condutores se faria consoante os anos de carta e exames teóricos e especialmente práticos cada vez mais exigentes. b) Melhorar substancialmente o nível de qualidade dos pisos das estradas em Portugal. A nossa A1 é envergonhada por qualquer estrada nacional espanhola... é vergonhoso e mesmo criminoso termos as estradas no estado em que temos as nossas, com sinalização deficiente, ângulos de curva completamente errados, buracos, lombas, depressões, etc, etc, etc. c) Melhorar a consciência dos condutores. O respeito pelos outros é essencial e este é um aspecto que tem que melhorar na sociedade portuguesa. Quando conduzimos temos que pensar se estamos a prejudicar outros e se sim remediar imediatamente a situação. d) Separar completamente o tráfego de peões com o de veículos. Noutro artigo abordarei esta parte, mas gostaria que ficassem com a ideia de que quer passadeiras, quer semáforos, quer bandas sonoras são ineficazes, arcaicas e mesmo perigosas. Bom, com estas possíveis soluções para um dos flagelos da nossa sociedade encerro o artigo. Até ao próximo artigo,
Ricardo Correia
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PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra