Sobre a Música e sucedâneos afins
Gostar de um artista não é, ao contrário do que se pensa, saber tudo o que se relaciona com ele, desde o que este ingere ao pequeno-almoço até ao tamanho da sua prole. É sim, na sua essência, tirar um aspecto da vida de alguém e admirar essa particularidade, absorvendo, sorvendo, fazendo uso do que ela tem de "bom" para cada indivíduo. É assim que eu me rio às gargalhadas das mentes que perdem o seu tempo rebuscando lados obscuros das vidas de certas pessoas ditas "famosas" e que fazem uso de preciosismos inúteis para as elevarem a um patamar virtual que nada tem de autêntico nem tão pouco de digno ou de heróico. Que me interessa a mim saber que o George Michael esteve numa casa de banho pública a fazer não sei o quê? Que me interessa a mim se a Madonna nada tem de puritano, ou que Marilyn Manson andou a fazer uso do seu corpo para práticas menos aceites pela sociedade? Estas interrogações deviam ser substituídas por outras do tipo: a música de George Michael está bem tocada e soa-me bem ao ouvido? Será que as letras de Madonna me dizem alguma coisa? Doí-me a cabeça quando ouço Marilyn Manson? Esta introdução serve apenas para que se tenha consciência daquilo de que se gosta sem no entanto cair no erro de idolatrizar, do fanatismo ou da "cegueira", que obviamente nada têm de benéfico. As melhores bandas, tirando algumas excepções, não são mainstream e sem querer entrar em demagogias basta ir buscar alguns exemplos. Todos nós conhecemos Da Weasel, mas quantos de nós têm os álbuns deles? "Beck? Sim, conheço, é aquele gajo do Loser, gosto muito", então e sabia que ele já tem sete álbuns editados e que são tão bons ou melhores do que esse? E porque não são mainstream? Porque as pessoas
são burras? Porque os ouvidos não foram educados desde pequenos ou foram educados a
ouvir o básico sem entrarem em contacto com a "boa" música? Porque bandas como
Nétinho, Backstreet boys e Cabe aos receptores musicais, as pessoas, os melómanos, os que realmente compram álbuns e vão aos concertos, acabar com eles, se bem que isto não tem um significado de extermínio, mas apenas reduzi-los àquilo que são e que representam e demolir o patamar virtual em que se encontram. É por isso que bandas como os Take That acabaram (a carinha lavada não dura para sempre), mas também é por isso que os Excesso, a Ágata e a Cher existem. Outros há que acabam enrolados na teia que eles próprios teceram e sem o pilar principal a sustentá-los , a música, caem que nem tordos num dia de caça. A boa música evolui, experimenta, muda, funde-se e por isso criticar bandas como os nacionais Sitiados por evoluírem na sua sonoridade é o mesmo que dizer-lhes que não deviam ter enveredado por este caminho e agora estão a ser fustigados com críticas dos ouvintes, traduzidas em fracassos comerciais por as vendas não lhes conferirem o valor merecido. Isto é tanto mais verdade quando se sabe que num país pequeno como o nosso, é difícil de conquistar uma quota de mercado suficientemente boa para se ir fazendo pela vida. "A mim o que me interessa é se gosto ou não desta ou daquela música, não quero cá saber se está mal feita ou tem erros de linguagem, ou até de saber de quem é." Atitudes como esta pululam no nosso universo de ouvintes e são elas as responsáveis pelo estado de coisas que se faz sentir. É preciso fazer notar que uma coisa é gostar de uma música e outra completamente diferente é gostar de todo um trabalho, coisa que só se consegue com anos de experiência. Por isso, antes de se dizer que se gosta deste grupo deve pensar-se bem no que se conhece dele e depois ver se isso é o suficiente para se poder dizer que se adora ou mesmo que o grupo favorito. Basta pensar um pouco, como se pode dizer que se gosta de um músico se só se ouviu uma das suas canções e que não raras vezes nem sequer foi ele que a compôs? É ridículo estar a falar, falar e não fazer nada.
Cabe-nos a todos educar a geração seguinte e pô-la a ouvir o que é bom (seja lá o que
isso for), e não censurá-la musicalmente pondo em risco uma educação musical que deve
ser quase à força de livre escolha. Antes de criticar é preciso ouvir e antes de ouvir
é preciso pré-disposição para isso. até o pimbal dar cabo de mim nunca fui marginal foi-me mesmo fatal todo aquele chinfrim Baixa o volume pediam os meus pais e eu como de costume ainda o subia mais Pouco barulho gritava a casa do lado e eu num mergulho tinha tudo equalizado Nem o Quim nem a Rute deram cabo de mim com tal foi o chinfrim maldita pimbalhada" adaptado de "Malditos Headphones" de Repórter Estrábico Marco Cardoso |

PHEUK OnLine - Jornal de Opinião da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra